Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade: Compreensão dos Elementos Conceituais das Dificuldades de Aprendizagem na Educação Infantil e suas Bases na Neurociência
Autoria | Organização
Evaldo Dantas da Silva Junior
DOI:
Data de Publicação:
30 de junho de 2026
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Introdução
O aprendizado humano é concebido como um processamento complexo de informações, por meio do qual, questões como modificações e combinações podem ocorrer nas estruturas cognitivas. Por meio de pesquisas, tem-se constatado que, no Brasil, cerca de 40% da população que frequenta as séries iniciais apresenta algum nível de dificuldade escolar. A atualidade tem nos mostrado uma realidade preocupante nos ambientes escolares, especialmente, no processo de aprendizagem dos alunos que apresentam especificidades inclusivas.
Nesse contexto, foi proposta esta pesquisa visando analisar as dissensões pedagógicas vigentes nos ambientes escolares, especialmente da Escola Estadual Governador Barbosa Lima e da Escola Estadual Comandante Luiz Gomes, situadas na cidade de Recife/PE, localizadas, respectivamente, no Bairro das Graças e Casa Amarela. Ambas as escolas foram impactadas, nos últimos anos, pela emergente presença de crianças com dificuldades de aprendizagem, agregadas às condições especiais dos alunos, dentre elas o TDAH - Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade. Para perquirir essa situação educacional, esta pesquisa fundamentou o seu processo investigativo nas bases conceituais da neurociência, focando casos de TDAH na Educação Infantil.
A relevância e a fundamentação do debate sobre esta temática se assentam em analisar as questões relacionadas ao TDAH, logo, às dificuldades de aprendizagem do aluno portador desse transtorno, na fase da Educação Infantil. Ressalta-se que as dificuldades de aprendizagem são, também, objeto de estudo e investigação da neurociência. Dessa forma, aproximam-se as duas áreas, ou seja, a neurociência e a educação.
A neurociência é uma área que estuda o cérebro humano, perpassando o processo do desenvolvimento cognitivo, envolvendo a aprendizagem com aquisição de habilidades e capacidades. A concepção de Neurociência[1], como conceito básico para esta pesquisa, está vinculado às proposições de Piaget e de Vigostsky. A base conceitual do termo neuro é abrangente a inúmeras dimensões e áreas do conhecimento neurológico.
A neurociência, conceituada por Oliveira (2011), abrange a complexidade do comportamento humano, alcançando os aspectos cognitivos, emocionais, sociais, bem como as ações auto reguladoras do conhecimento, as quais objetivam o desenvolvimentoneuroeducacional ou pedagógico, por meio do qual se pode analisar o indivíduo como o principal sujeito da ordem social.
Nessa perspectiva, foi possível identificar uma série de elementos da neurociência que podem relacionar e, obviamente, contribuir com a aprendizagem. A atenção, a memória, o estado emocional da pessoa exposta ao aprendizado, a linguagem e a inteligência, por exemplo, são fatores relevantes que muito contribuem para incentivar e fortalecer o processo educativo.
Então, na medida em que aceitamos a concepção de que a aprendizagem é um processo que se compõe por diferentes fenômenos neurais que se inter-relacionam, podemos assegurar que somos capazes de valorizar cada um desses elementos, em suas funções. Assim, contribui-se para que o ensino cumpra a sua função social, de fato e de direito, dentro de uma longa e ampla cadeia da aprendizagem.
Oliveira (2011), conceituou a neurociência como a ciência que se dedica a estudar, também, as células do sistema nervoso, bem como a organização delas na formação de um dos tecidos mais complexos que constituem o corpo humano, o tecido nervoso, que mantém ligação direta e instantânea com o sistema emocional. Logo há de se perceber que esta ciência humana, assim como a biologia, faz o estudo da vida humana. A vida se encontra no eixo dessa concepção, não por agrupar os fatores estruturais do corpo humano, mas, além disso, por interligar-se, por meio da ação das células e dos tecidos do sistema nervoso, às suas dimensões neuroemocionais, ou melhor, neurobiológicas. Portanto, a neurociência pode ser conceituada como uma ciência que estuda a existência humana, além de ser aquela que procura conhecer a capacidade evolutiva do homem.
A análise neurocientífica pode se iniciar pela tentativa, por exemplo, de identificar a causa do TDAH. Podemos entender que este transtorno resulta da união de vários fatores que se inter-relacionam e podem ser decisivos para a elucidação do processo de aprendizagem, porque, em se tratando de máquina humana, tudo se encontra interligado numa mesma fonte enunciadora – no cérebro.
Conforme Fernandes (2014), é comum encontrar pessoas que conhecem ou que convivem com crianças, em fase de Educação Infantil, que apresentam repulsão para resolver as tarefas escolares e que demonstram relacionar-se, tanto no ambiente da sala de aula como entre os pares, de forma desatenta ou distraída. Quanto ao ambiente escolar, ressalta-se que uma das funções da escola é dar, a essas crianças, a necessária abertura para que amadureçam, tanto psicologicamente como socialmente. Na fase da Educação Infantil, a escola deve estimular o desenvolvimento socioemocional das crianças, ajudando-as a aprender habilidades como a resolução de conflitos, a cooperação e a empatia, fornecendo-lhes oportunidades para a interação social com os colegas.
No entanto, nota-se a falta de conhecimento e de habilidade dos professores para lidar com tais situações, que, ao invés de revigorar, acaba contribuindo para desmedir, ainda mais, os transtornos. Tal situação reflete negativa, principalmente na criança e, lógico, na sua família, pois não há genitor que admita ouvir difamações sobre seu filho, do tipo, preguiçoso, rude, pouco inteligente, etc.
Segundo Martinez e Semrud-Clikeman (2014), é nas crianças que se manifestam os problemas porque elas são muito receptivas e reagem, passivamente, aos efeitos de uma agressão, o que pode levá-las a um estado depressivo ou acentuar o transtorno. Por esta razão, faz-se necessário que a escola engaje, com firmeza, no propósito de organizar sua estrutura física e pedagógica de modo a incluir suas crianças, sejam elas portadoras diretas ou não de distúrbios.
Partindo do exposto, ratifica-se o foco central desta pesquisa, que convergiu para a investigar o TDAH, com a finalidade de esclarecer os problemas de aprendizagem na fase da Educação Infantil, em duas escolas públicas de Recife-PE. O embasamento teórico foi pautado na neurociência, focando os déficits de aprendizagem, pela identificação de sintomas sobre as prováveis causas das dificuldades de aprendizagem e pelo apontamento dos seus respectivos aspectos relevantes.
Os estudos teóricos perpassaram vários autores/pesquisadores. Para aprofundamento da temática, buscou-se apoio em Carneiro (2007), na afirmação de que os problemas de aprendizado representam fenômenos que afetam a compreensão, bem como o uso da linguagem falada ou escrita, também a realização de cálculos matemáticos, coordenação motora, atenção direta, etc. Apesar dos problemas de aprendizado ocorrerem, também, em crianças na fase da Educação Infantil, tais distúrbios geralmente não são reconhecidos até a idade escolar propriamente dita. Se uma criança demonstrar dificuldades na Educação Infantil, é importante que seus pais e/ou professores trabalhem juntos para identificar a causa e encontrar soluções que possam ajudá-la a superar seus desafios.
Assim, reiteramos que o tema de investigação, nessa tese, priorizou o aprofundamento sobre as dificuldades de aprendizagem na Educação Infantil, o TDAH e o olhar da neurociência. Segundo Ciasca (2015), o TDAH atinge de 3% a 6% de crianças em fase de Educação Infantil, em todo o mundo, sendo responsável por boa parte do baixo rendimento escolar e déficit de aprendizagem. Dessa forma, destaca-se a relevância da temática investigada.
Parafraseando Oliveira (2011), podemos creditar a existência de conceituadas pesquisas que, por unanimidade, confirmam a tese de que o cérebro humano sofre mutações de longo prazo, no decorrer da vida. Desse modo, a formação da memória é mais eficaz quando novas informações são associadas ao conhecimento prévio. É evidente que, para conseguir aprender, o indivíduo precisa contar com suas próprias estruturas física, psicológica e cognitiva, igualmente com a combinação dos fatores emocionais, neurológicos, relacionais e socioambientais. Qualquer outro fator que venha a influenciar, negativamente, qualquer um que seja desses fatores, afetará os caminhos do aprendizado, complementa Relvas (2005).
A fusão de descobertas contemporâneas da neurociência sobre o desenvolvimento biológico humano aumentou nossa compreensão acerca da importância dos primeiros 6 (seis) anos biológicos de um novo indivíduo. Avançando nesta expectativa, inicia-se o trabalho de desvendamento para certificar se a interação da maturação dos circuitos cerebrais com os mecanismos biológicos, comumente, afeta o caminho do aprendizado, da linguagem, do comportamento e, consequentemente, da saúde de um indivíduo, ao longo de sua vida (Lent, 2014).
Os pais sempre souberam, de maneira intuitiva, que recém-nascidos e crianças devem ser cuidadas e protegidas. Na nova interpretação acerca da evolução da circuitaria cerebral é o que este órgão (cérebro), tão frágil e complexo, pode revelar, por exemplo, sobre os resultados de uma boa alimentação e cuidados com a saúde, principalmente na fase pré-natal e nos primeiros anos, projetando, assim, as estruturas para as etapas posteriores de desenvolvimento (Papalia; Olds, 2014).
A neurociência aponta que, naturalmente, esse estímulo ao processo de evolução biológica tanto pode ser de qualidade como deletério, como uso abusivo de fumo e álcool. É fato comprovado que a síndrome alcoólica fetal, entre outros danos, estimula a “queima” de neurônios, provocando déficits comportamentais e de função cognitiva(Slater; Lewis, 2016). É também evidente que a carência de ferro na alimentação acaba produzindo profundos efeitos nas funções motoras e cognitivas de um indivíduo. Componentes do ferro participam, indiretamente, da síntese de neurotransmissores, mielinização das fibras nervosas e na codificação da memória no hipocampo (Moura, 2014).
As referidas evidências comprovam que a caracterização dos fenômenos do aprendizado pode ser entendida pela dependência de inúmeras condições, as quais, frequentemente, se encontram inter-relacionadas. Assim, a inspiração de um educando por esta ou aquela atividade pode ter ligação direta com sua idade, com seu ambiente sociocultural, de onde provém suas necessidades imediatas, às vezes, efetuadas em experiências anteriores, enfim da motivação que orienta seus comportamentos.
Quando um educador respeita a dignidade do seu aluno tratando-o com compreensão, efetua-se uma atitude construtiva, capaz de desenvolver na criança a autoafirmação e, consequentemente, a resposta para seus problemas, tornando-a, desse modo, agente de seu próprio aprendizado.
Segundo Tessari (2003), a utilização do termo “problemas de aprendizado”, evidencia a existência de crianças que frequentam escolas e apresentam essa caracterização, embora sem transparecer defeitos físicos, sensoriais, intelectuais ou emocionais. Trata-se de um “rótulo” que vem, ao longo dos anos, acometendo essas crianças, sem diagnóstico e sem tratamento adequado. Agora, graças à intervenção da neurociência, foram retirados do contexto os sentimentos de inépcia e culpabilidade, passando, tais conflitos, a serem identificados como: “hiperatividade, síndrome hipercinética, síndrome da criança hiperativa, lesão cerebral mínima, disfunção cerebral mínima”, problema de aprendizado ou disfunção no aprendizado (Levin, 2015, p. 18).
Conforme o exposto e seguindo as orientações de Lakatos e Marconi (2015), nesta tese, adotou-se comumente o cumprimento do processo de pesquisa e construção de uma matéria científica, buscando, assim, chegar ao saber almejado, bem como ao fim proposto. Com a realização da análise da realidade sobre a problemática de aprendizagem e na expectativa de uma contribuição científica da neurociência para a área pedagógica, foi possível ampliar o horizonte sobre a temática com foco na investigação do TDAH, com a finalidade de esclarecer os problemas de aprendizagem, na fase da Educação Infantil.
O andamento geral desta pesquisa foi guiado pela pergunta que centraliza a problemática investigada: - De que maneira as concepções da Neurociência podem orientar as atividades pedagógicas da prática docente, especialmente no contexto da Educação Infantil, intermediando a relação das crianças, portadoras de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), com o processo de ensino-aprendizagem?
Mediante o questionamento acima, foi determinado o objetivo geral: Analisar as concepções e dificuldades dos educadores, em relação às crianças da Educação Infantil com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), no processo de aprendizagem, usando a neurociência para entendimento e amparo teórico, no contexto da Escola Estadual Governador Barbosa Lima e Escola Estadual Comandante Luiz Gomes, da cidade de Recife/PE.
Para melhor condução da pesquisa, foram estabelecidos os objetivos específicos que guiaram as ações da investigação:
Apontar o elemento do discurso que se encontrar presente nos Projetos Políticos Pedagógicos das escolas estaduais Governador Barbosa Lima e Comandante Luiz Gomes, da cidade de Recife/PE, para identificar as metas e as ações referentes às ações pedagógicas específicas para inclusão de crianças com TDAH, na Educação Infantil;
Descrever as concepções dos professores sobre as práticas pedagógicas aplicadas às crianças com TDAH, na Educação Infantil, no âmbito das escolas pesquisadas, coletadas por aplicação de questionário;
Revelar, analisando-as à luz da neurociência, as dificuldades de aprendizagem, encontradas pelos educadores da Educação Infantil, na sua relação com as crianças portadoras de TDAH;
· Apontar a neurociência como fonte de possibilidades para a compreensão das dificuldades de aprendizagem, das crianças portadoras de TDHA, e como fundamentação das práticas pedagógicas específicas para essa disfuncionalidade, visando a inclusão e o desenvolvimento pleno do aluno mediante suas especificidades.
Justificamos esta pesquisa diante da crescente necessidade de esclarecer o assunto, bem como consolidar meios, estratégias e ações positivas que visem amenizar, ainda que parcialmente, a problemática sobre a aprendizagem do aluno com TDAH, na Educação Infantil. Releva-se, também, de tal modo, a iniciativa de apontar alternativas ou sugestões de solução, valorizando a eficiência dos profissionais que se encontram à frente dessa árdua tarefa, ou seja, ajudar a criança com TDAH a se educar ou, senão, a superar suas próprias dificuldades.
Visando à efetivação dos objetivos propostos, a pesquisa foi estruturada em 04 (quatro) Capítulos, visando, fundamentalmente, dar expressão ao fenômeno investigado, de forma associada aos marcos teóricos da Neurociência.
No primeiro capítulo, discutiu-se, para situar o tema, os antecedentes da pesquisa e a formulação do problema, iniciando por uma abordagem investigativa, à ótica da neurociência, em relação aos problemas de aprendizagem em crianças, especialmente, portadoras de TDHA e frequentadoras da Educação Infantil, cuja reflexão apoiou-se nas experiências demonstradas em várias fontes teóricas.
O segundo capítulo foi destinado a trabalhar o marco teórico, organizado com base em estudos significativos acerca dos problemas de aprendizagem, apontando as contribuições da neurociência para compreensão das dificuldades de aprendizagem das crianças portadoras de TDHA, na Educação Infantil.
No terceiro capítulo, constituímos o marco metodológico, ou seja, descrevemos o caminho escolhido para a realização da investigação, composto por sujeitos, universo, processo investigativo e os respectivos procedimentos de coleta de dados, nas escolas-campo.
O quarto capítulo foi dedicado à apresentação e análise dos resultados, reservado à interpretação dos dados recolhidos e analisados à luz das teorias vigentes sobre os problemas de aprendizagem, na Educação Infantil, com ênfase no TDAH, fundamentando-se na neurociência.
Por fim, vieram as Conclusões e Considerações Finais da pesquisa que, além de apontar sugestões acerca da temática estudada, confronta os objetivos da investigação com os dados da pesquisa, tornando possível chegar às conclusões do trabalho.
No próximo capítulo, foi construída a situação da questão temática, em torno da qual investigou-se o fenômeno na realidade educacional. Foram apontados aspectos antecedentes a esta pesquisa e descrita a formulação do problema, bem como o planejamento da investigação.
[1] Neurociência: Piaget (1896-1980) e Vygotsky (1896-1934), resumidamente, compreendem o estudo do sistema nervoso central e suas funcionalidades, condicionadas, essencialmente, ao desenvolvimento do cérebro humano.
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